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Sem Braga Netto, direita recalcula rota no Rio

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de declarar o general Walter Braga Netto (PL) inelegível embaralha ainda mais a pré-campanha eleitoral para a Prefeitura do Rio de Janeiro, no ano que vem. Ministro chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro (PL), o militar era o nome mais cotado pelo partido para disputar a preferência dos cariocas com o atual prefeito Eduardo Paes (PSD), candidato à reeleição ano que vem.

A conquista da prefeitura é uma das prioridades da família Bolsonaro, que tem a cidade do Rio como berço político. O PL só deve bater martelo sobre o pré-candidato à prefeitura em fevereiro, mas a saída de Braga Netto abriu caminho para o deputado federal Alexandre Ramagem (PL), ex-diretor da Agência Brasileira de Investigação (Abin) na gestão Bolsonaro.

O partido do ex-presidente pretende recorrer da decisão pela inelegibilidade de oito anos de Braga Netto ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas diante das poucas chances de sucesso, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, prontificou-se em apontar Ramagem como a segunda opção na capital fluminense.

Delegado da Polícia Federal, Ramagem é homem de confiança do ex-presidente. Embora pesem sobre o delegado denúncias de espionagem clandestinas feitas pela Abin na sua gestão, aliados de Bolsonaro nutrem simpatia pelo parlamentar. O nome dele, inclusive, já vinha sendo trabalhado pelo núcleo mais próximo ao ex-presidente antes do veredicto do TSE.

Na terça-feira (31), Braga Netto e Bolsonaro foram condenados por eventos realizados no 7 de setembro, no ano passado. Os ministros da corte entenderam que as celebrações eram práticas de campanha revestidas de ato oficial, e tornaram o general inelegível por oito anos. Nas redes sociais, o ex-ministro de Bolsonaro afirmou que vai recorrer da decisão e que as ações foram legais.

Ex-ministro da Defesa Walter Braga Netto — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ex-ministro da Defesa Walter Braga Netto — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mas antes mesmo da derrota no Tribunal Superior Eleitoral a mobilização pela pré-candidatura do general havia sofrido um baque. Em setembro, Braga Netto foi alvo de investigação da Polícia Federal sobre desvios de recursos na intervenção federal na segurança pública do Rio, decretada em 2018 pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). O militar, que atuou como interventor no Estado, teve o sigilo telemático quebrado pela Justiça. Até então, a passagem pelo cargo era uma das credenciais que qualificavam o ex-ministro como candidato forte no Rio, pelo perfil alinhado à bandeira da segurança pública.

Apesar da designação de um “plano B” para o bolsonarismo no Rio, a disputa segue fragmentada, sobretudo, no campo da direita. Cientistas políticos apontam que o espectro conservador enfrenta dificuldades para encontrar um nome competitivo e capaz de fazer frente a Paes, que tem a máquina pública e um terceiro mandato nas mãos.

Dentro do próprio PL, o senador Carlos Portinho e o deputado federal Eduardo Pazuello, mais longevo ministro da Saúde de Bolsonaro, ainda tentam construir suas candidaturas. Por fora, o deputado federal Otoni de Paula (MDB) e o deputado estadual Rodrigo Amorim (PTB) buscam se viabilizar, embora o último admita sair de cena em prol de um nome forte do campo conservador. O governador do Rio, Cláudio Castro (PL), tampouco se posicionou sobre as últimas movimentações. Castro vinha defendendo a indicação de quadros da própria base com perfil mais moderado.

“O desafio continua sendo buscar um nome nas fileiras do PL e na sociedade de alguém que possa enfrentar um prefeito bem avaliado e com ampla estrutura de apoio”, diz o cientista político Jairo Nicolau, professor titular do FGV CPDOC. Para ele, a saída de Braga Netto eliminou a possibilidade de um nome consensual e abriu o jogo para figuras do “escalão inferior”.

O professor lembra que desde que Bolsonaro alcançou projeção nacional, em 2015, os candidatos a prefeito apoiados por ele não venceram no Rio de Janeiro.

Em 2016, Flávio Bolsonaro (PL) foi o quarto colocado na disputa municipal, com 424.307 votos. Em 2020, Marcelo Crivella acabou derrotado por Paes no segundo turno do pleito, mesmo com apoio de Bolsonaro, à época no Planalto.

Na última eleição presidencial, Bolsonaro foi vitorioso no Rio. Ele recebeu 1.929.209 votos, 52,66% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 1.734.159 votos, 47,34% do total.

Coordenadora do Laboratório de Partidos e Política Comparada da UFRJ, a cientista política Mayra Goulart avalia que o bolsonarismo é um cabo eleitoral importante e que o discurso punitivista encontra eco na fragilidade da segurança pública em um Estado conflagrado pela violência como o Rio. Por outro lado, ressalta que a eleição municipal tem particularidades que impõem limites a candidatos que não dialogam com questões e lideranças locais.

“O bolsonarismo ocupa um espaço que não dá folga para quem o representa. Ainda mais no campo da política local, em que o voto está atrelado ao território e suas lideranças locais. Nesse sentido, o bolsonarismo tem limitações, uma vez que se coloca como outsider”, pontua.

No campo da esquerda, Paes caminha para ter o apoio do presidente Lula, apesar de uma corrente defender que o partido tenha candidatura própria. O prefeito deve indicar alguém de confiança para o posto de vice, já pensando em deixar a prefeitura para concorrer ao governo do Estado em 2026.

Também na esquerda, o Psol lançou o nome do deputado federal Tarcísio Motta, candidato ao governo do Estado em 2014 e 2018, e vereador da capital por dois mandatos, entre 2017 e 2022.

Para os nomes que se colocam no páreo, a pulverização de candidaturas pode levar a eleição do Rio para um segundo turno. (Colaborou Lilian Venturini, de São Paulo)Mais recentePróximaComo o PSD, de Kassab, se tornou o partido de metade dos prefeitos do Estado de SP

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